Sete Rei da Lira!

Sete Rei da Lira – LP – Odeon – 1971 

01.Saravá a Coroa Maior; 02.Sete na Lira; 03.Guardião dos Caminhos; 04.A Casa de Seu Sete; 05. É prá quem tem fé; 06. Sete é protetor; 07.Rosa Vermelha; 08.Rei da Lira; 09.As quatro cordas; 10.Estrela de Audara Maria; 11.Audara Maria do Ricó; 12.Dona Audara Edimum;

Discos ao vivo e em estúdio de seu Sete da Lira e de Jorge Ogan, com composições inspiradas de Mãe Cacilda de Assis

A Mãe de Santo Cacilda de Assis foi um dos médiuns mais polêmicos da história da religião brasileira, graças ao Exu que lhe assistia. Aos 13 anos de idade recebeu pela primeira vez o “Seu” Sete Rei da Lira, o qual foi assentado em 13 de junho de 1938, aos 15 anos, quando Cacilda recebeu sua iniciação de seu Pai, Benedito Galdino do Congo, em Coroa Grande, próximo da conhecidíssima Itacuruçá, no Rio de Janeiro (local onde funcionou um outro importantíssimo terreiro da história das religiões brasileiras). Ela também trabalhava com a Pomba Gira Audara Maria.

Seu Sete na Lira!

Seu Sete e suas curas com marafo!

Mãe Cacilda de Assis em seu programa de rádio
O Rei da Lira se apresenta como Exu, muito embora em suas características originais o liguem também ao mundo da encantaria, onde é conhecido como Sete Rei da Lira, José das Sete Liras ou o Rei das Sete Liras. Poucos conhecem as lendas desta entidade enquanto encantado, que começa na Idade Média e vai até a sua reencarnação no século dezenove. Na Espanha Medieval, havia um casal: Caio e Zelinda. Caio era um descendente de gregos, que tocava e fabricava instrumentos musicais, especialmente liras. Zelinda era uma bela negra africana, que escondida dos poderosos da época, fazia rituais mágicos.

Manifestação da Pomba Gira Audara Maria

Tiveram um filho chamado José, que era muito inteligente e tocava instrumentos como ninguém. O garoto herdou do pai o gosto para tocar e fabricar liras, das quais construía 7 diferentes modelos. Da mãe herdou os poderes paranormais: curava pessoas doentes, movia objetos com o olhar, tinha sonhos premonitórios, via a aura das pessoas etc. Na adolescência, conta a lenda que o garoto passou a incorporar espíritos enquanto tocava e uma destas almas seria a do bíblico Rei Davi. Por fazer muito sucesso com as mulheres, um marido ciumento entregou-o para os representantes da igreja, acusando José das Sete Liras de bruxaria. Foi queimado na fogueira pela Inquisição.

Seu Sete me protege com sua capa. Quem tem sua capa escapa.

Seu Sete da lira trabalhando
A fama do Exu Sete Rei da Lira que baixava em Mãe Cacilda começou a crescer rapidamente devido à característica inusitada de suas giras – onde todo tipo de música poderia ser cantada e tocada – e no uso impressionante da ingestão de vários litros e litros de “marafo”, além da roupa ritualística bordada em veludo preto, botas, capas e cartola. Quem presenciou a manifestação deste espírito se impressionou com o magnetismo e com a capacidade de movimentação das pessoas que acorriam ao seu templo, em Santíssimo, um bairro do Rio de Janeiro. Corriam as notícias de boca a boca, dos casos de cura de doenças gravíssimas etc e rapidamente a gira de seu Sete chegou à marca impressionante de mais de cinco mil pessoas por rito.
Compositora e escritora, Mãe Cacilda tinha um programa na Rádio Metropolitana de Inhaúma e o caso é que a fama de seu 7 se espalhou tanto que artistas como Tim Maia, Freddie Mercury e o grupo Kiss estiveram por lá sabe-se lá por qual razão, até que um dia alguém foi até o terreiro e desafiou o Exu a baixar em rede nacional. Ao contrário do que se esperava, o seu Sete concordou e foi aí que o “dendê ferveu”!

Fotos das milhares de pessoas que acorriam ao templo de seu Sete da Lira. Olhe bem e descubra onde está o Exu!
Eu me lembro bem do fato, pois todo mundo comentou: foi em 1971, eu tinha 5 anos e me é inesquecível o sotaque de uma portuguesa da vila em que eu morava no bairro do bexiga em sampa, agressiva e transtornada, ao comentar: “Um ab’surdo, c’mo deixaram um d’mônio daq’les b’xar no p’grama do Ch’crinha?? Viram o que el’ fêx?? A revolta da mulher, católica radical (ainda não existiam os neopentecostais que mais tarde se aproveitariam do mesmo tipo de discurso), era acompanhada de uma credulidade não assumida: “T’do bem, o santo baixou em todo mundo, isso realmente é difícil de explicar, mashhhh…”


Seu Sete da Lira no programa “Flávio Cavalcanti”
Incorporada pelo Exu “Seu” 7 Rei da Lira Cacilda havia transformado os programas de Chacrinha e Flávio Cavalcanti num verdadeiro ritual de Kimbanda, daqueles mais bravos. Não se questiona aqui a veracidade da presença do Exu naqueles momentos, ou se é válido esse tipo de exposição ou de manifestação em público, mas há a verdade inquestionável de que algum poder realmente tomou conta das pessoas naqueles programas, pois platéia, cantores, assistentes de câmera, seguranças, contrarregras e outros entraram em transe, desmaiaram ou foram “mediunizados” por exus e outras entidades.
Inabalável, seu Sete da Lira após “tocar a macumba” no programa de Flávio Cavalcanti, sem desincorporar saiu de carro dos estúdios da TV Tupi acompanhado por seus cambonos e foi até os estúdios da Rede Globo no programa do Chacrinha e nem bem entrou no palco, o mesmo fenômeno aconteceu: Chacretes, músicos, diretores e outros entraram em transe.
O próprio Chacrinha, o rei da caricatura e da esbórnia ficou sem ação, conforme o relato do professor universitário Paulo Duarte: “(…) me causou espanto, assistir, há dias àquele espetáculo de ‘Seu Sete’, apresentado como se fosse um retrato do Brasil: uma ‘mandingueira’ de cartola e charuto, espargindo cachaça pela multidão em transe, como um sacerdote o faz com água benta. Um adolescente entrou para colaborar, quando foi ‘tomado’ diante da Mãe de Santo. Esta, que já bebera em público largos goles de pinga, esborrifou-lhe o rosto com um pouco da bebida, aos efeitos mágicos da qual o moleque voltou à razão em meio ao alvoroço da multidão, sob o patrocínio de um Chacrinha mais inconsciente que legítimo”.

Reportagem na revista “Amiga” de 1970, sobre seu 7 da lira 

Mãe Cacilda com a Cabocla Jurema manifestada

Na Censura Federal centenas de telefonemas de protestos e de narrativas de pessoas que haviam entrado em transe em suas casas entupiram as centrais telefônicas, a Igreja Católica constrangida reuniu sua cúria para debater o problema e a concessão das duas emissoras de TV quase foram suspensas pelo governo, alegando a defesa da “moralidade” e dos “bons costumes”.
Na verdade, o que podemos concluir é que a Umbanda e as religiões afrobrasileiras fazem parte de uma parcela do imaginário brasileiro – principalmente a Kimbanda – que se for colocada à mostra em sua totalidade, pode gerar efeitos inesperados no senso comum e padrão das classes sociais e religiosas acomodadas, pois raramente se viu na história da cultura brasileira a religiosidade das classes subalternas manifestar-se de modo tão expontâneo e incontrolável e ainda, em escala nacional, como foi feito pelo Sr. Exu da Lira e só por ele, sozinho!

Capas de seu Sete da Lira. 

Manchetes de jornais da época sobre seu Sete da Lira.

Uma das últimas fotos de Cacilda de Assis mediunizada…
Pela primeira vez na história do país, cujo Estado e cujas classes dirigentes desfiam ao longo dos tempos uma compreensão e narrativa eurocêntrica sobre si mesmos, a sociedade brasileira se viu obrigada e se olhar no espelho tão profundamente que não aguentou se ver tão frágil e desnuda frente aos efeitos do trabalho de um Exu Guardião. E as reações subsequentes revelaram ainda posicionamentos elitistas arraigados nas velhas estruturas de dominação e da luta de classes no plano das representações simbólicas. Entre o próprio povo do santo a coisa se dividiu: em conversa com nosso querido amigo, o pai Pedro Miranda, esse nos relatou que certas “cúpulas” umbandistas da época recusaram-se a tentar entender o fenômeno “da Lira” e também tentaram abafar o caso…
Mas o evento mais grave e interessante aconteceria longe, no centro do poder: estavam assistindo aos programas o então presidente Médici e sua esposa D. Cyla. Indignado, o general iria tomar algumas “providências” contra Mãe Cacilda, quando, subitamente, ao seu lado, D. Cyla, incorporada, dá uma sonora gargalhada, pede uma rosa, uma champanhe e diz pro presidente não mexer com quem não podia…

Bastidores do Brasil… bastidores da Kimbanda…

Ao sr. Sete Rei da Lira: Mojubá Exu!!

Para ouvir a faixa 10, “A estrela de Audara Maria”, com a participação do próprio Exu Sete da Lira, clique abaixo: 

Para ouvir a faixa “Recordar é viver”: clique abaixo:


Para ouvir a faixa “A estrela de Audara MAria”:, clique abaixo:

O vídeo abaixo mostra a retração da Cúpula de Umbanda do Rio de Janeiro que à época em documentos e entrevistas negou que Seu Sete e Dona Cacilda tivessem alguma ligação com a Umbanda. Estranhamente o vídeo se utiliza do texto que publicamos em nosso blogue e não nos dá o crédito. Parece que certas coisas nunca mudam. Mas vale o registro das fotos…

Jorge Ogan Canta composições de Mãe Cacilda de Assis:

Entrevista de Pai Pedro Miranda concedida a mestre Obashanan em 2007 falando sobre o Sr. Sete da Lira e a injustiça a ele cometida pelos umbandistas da época.

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Deixa a Gira Girar! Uma maravilha da Canção Umbandista, hoje um clássico da MPB!

Desde quando surgiu a indústria fonográfica, a música de terreiro tem sido “apropriada” por compositores populares que a transformam em sambas, lundus, maxixes, rocks, etc, muitas vezes em formatos não tão dignos, em outros, criando lindíssimas obras que se tornam verdadeiros clássicos da música popular. O ponto de Umbanda que ficou conhecido como “Deixa a Gira Girar” foi pela primeira vez recolhido por J.B. de Carvalho nos anos 30, registrando a canção como de sua autoria.

O Grupo Tupi Liderado por J.B. de Carvalho, firmando a Curimba!

“Deixa a gira girar” é um ponto dedicado à Iansã e é muito conhecido pelos Umbandistas. O grupo Tupi foi o primeiro a gravá-lo. Sua versão original dos anos 30 pode ser conferida em “Deixa a gira girar” na postagem abaixo.

Nos anos 70 outro grupo, os Tincoãs, faria uma das mais belas versões desta música, num álbum antológico. Com J.B. praticamente esquecido, em algumas mídias, o ponto é colocado como de autoria de Dadinho e Matheus Aleluia.

 

Os Tincoãs, com roupas formais de caboclo: três das mais belas vozes da música brasileiríssima!!

Confira sua versão da música “Deixa a Gira Girar” aqui:

 

E finalmente, encontramos este vídeo de Rita Ribeiro, Jussara Silveira e Teresa Cristina na gravação do DVD “Três meninas do Brasil”, onde executam esse ponto com o mesmo arranjo vocal dos Tincoãs, num trabalho magnífico! Confiram!

Na Gira dos Exus – 1974

 

Na Gira dos Exus (Alvorada – 1974) – 1. Gira-Mundo; 2. Exu Tranca Rua da encruza; 3. Exu da Porteira; 4. Ponto de Exu; 5. Exu das 7 encruzilhadas; 6. Seu tuniquinho Exu; 7. Exu Maria Padilha; 8. Pomba Gira da Praia; 9. Pomba Gira Cigana; 10. Segura o Ponto; 11. Gira das Pomba Giras; 12. Pomba Gira na encruza de T;
Capa posterior e contracapa

Rótulos do relançamento da Chantecler

Era muito comum nas décadas de 40-70, compositores como J. B. Carvalho e outros se apoderarem de pontos de raiz – criados na inspiração mediúnica e na manifestação de entidades incorporadas desde os primórdios do movimento umbandista – e registrá-los como de sua autoria. É o que acontece nesse disco, onde a maior parte dos pontos são de raiz e estão apresentados como de autoria de J.B. de Carvalho e podemos, até mesmo considerar este disco como um dos últimos dele, pois há, em algumas faixas a presença do mesmo no coro: sua voz é inconfundível! A gravação é muito boa, com bons Alabês executando a Cabula de modo competente. O coral é de estúdio, tentando simular o clima de terreiro. Uma das cantoras tenta imitar Cacilda de Assis que incorporava o Exu 7 da lira e fez muito sucesso na década de 60.

Para ouvir a faixa 5, “Exu das 7 Encruzilhadas”, clique abaixo:

 

No Reino de Exu – 1985

no reino de exu capa2
no reino de exu contracapa
Contracapa
No Reino de Exu (LP/Fermata/Cáritas/Luzes/1985): 01. Abertura Marabô/Tiriri; 02. Toque para Exu; 03. Vou abrir minha aruanda; 04.Ele é Mojibá; 05. Oxalá meu pai; 06. O sino da Igrejinha; 07. Afirme seu ponto; 08. quando deu meia noite; 09. seu tranca rua; 10. Exu arranca-toco; 11. Rei da encruzilhada; 12. Exu traz sorte; 13. Exu fez uma casa; 14. Tua sai mandou; 15. Filho não conhece o pai; 16. Seu Zé Pilintra; 17. Saudação a Exu; 18. Seu Marabô e Tiriri;

Capa de edição posterior 
Produção: JAR; Coletânea muito famosa entre os umbandistas de suas várias escolas e o disco é um exemplo claro dessa multiplicidade de rituais e modos de cantar do povo de santo. Os registros vão desde toques e cantos da nação kêto até a presença de terreiros de Kimbanda e Encantaria, com Tata José Ribeiro e Pai Caio de Souza Aranha do Axé Ilê Obá. A faixa 06 da tenda de Umbanda N. Sra. Aparecida pode chegar a dar “medo” nos mais “sensíveis com as coisas de Exu, tamanha a sua intensidade No Cd, duas faixas a mais, a primeira e a última (São a mesma!!), com pai Cido de Oxun Ein. Um bom disco.
Para ouvir a faixa 10, “Exu Arranca-Toco”, clique abaixo:

Fonoteca Templo da Estrela Verde

 

Fonoteca Templo da Estrela Verde: pesquisa e reunião de acervo de Música de Terreiro

 

O homem já foi à lua e recentemente um astronauta brasileiro foi ao espaço. A modernidade aportou de vez no nosso país; a TV digital deve desembarcar nas casas tupiniquins em poucos meses, segundo o noticiário. Mas apesar disso, dentre outras questões, ainda temos pesada dívida com a nossa história, ainda temos dificuldade de entender como se formou a cultura do povo brasileiro, ainda carecemos de ferramentas que nos ajude a penetrar na intimidade desta formação.Não se pode negar que a Umbanda, o Candomblé e outras religiões irmãs, que formam aquilo que se convencionou chamar O Povo do Santo, teve participação fundamental na construção de uma identidade do brasileiro, ao reunir num sistema único os elementos de diversas culturas.

Assim, a música sacra brasileira, a música de terreiro é o fio que está por dentro de toda a manifestação religiosa, filosófica e cultural que une e ao mesmo tempo exprime a alma da gente deste imenso terreiro chamado Brasil. Os pontos cantados, os toques de tambor fizeram o ritmo da formação e desenvolvimento do Brasil, a trilha sonora de uma saga que está longe de se acabar.

O Templo da Estrela Verda, a Casa do Caboclo Aymoré lançou luz sobre esta questão. Fundado pelo Pai William de Ayra (Mestre Obashanan), a O T.E.V. possui uma fonoteca que reúne discos, MP3, vídeos, cds e fitas em gravações de todos os tempos da Música Sacra Brasileira, ritos e algumas de suas derivações e naturais decorrências.

Hoje são mais de 20.000 fonogramas recolhidos e organizados, que contam mais de cem anos da História fonográfica do Brasil, e quase 500 do povo de terreiro em suas inúmeras expressões.

O escritor, músico e jornalista Obashanan começou a pesquisar a tradição rítmica dos terreiros há cerca de 30 anos, e decidiu reunir um acervo que pudesse servir de base de estudos para os  interessados na música brasileira e suas origens.

Ainda segundo Obashanan (um dos mais completos e respeitados Alabês do Brasil, segundo o próprio povo do santo) a música de terreiro é a base que amparou a formação da música brasileira, emprestando à mesma sua base rítmica, com células originalmente africanas e indígenas. Por isso a música Sacra Brasileira precisa ser conhecida pela população de forma geral.

Num primeiro momento a Fonoteca apresentou basicamente gravações feitas por esforço de Templos que registraram, além do Ponto de Raiz, cantado nos terreiros, também composições de filhos de santo em louvação às suas Entidades e Orixás, além de discos de gravadoras. Numa fase seguinte o acervo contou com discos e gravações de músicas inspiradas nas cantigas de Terreiro e que aos poucos foram ganhando aspectos mais populares, mais voltados portanto, ao entretenimento do que ao relacionamento com o Sagrado

Com o esforço desta contribuição, todos podem se valer da Fonoteca do Templo da Estrela Verde para pesquisa sobre as origens da música no Brasil.

Ander Dias: Como surgiu a ideia de se constituir a fonoteca?

Obashanan: Na verdade a ideia inspiradora da construção do acervo veio da observação de uma carência real do registro das manifestações religiosas afro-brasileiras. Pensei comigo mesmo que o Movimento Umbandista é tão voltado ao aspecto musical – a música para o Povo do Santo é muito presente na vida prática – que uma Fonoteca seria essencial à pesquisa, tanto quanto os livros. Juntei a este pensamento o trabalho pessoal que já fazia, de anos e anos de pesquisa sobre as manifestações musicais dos templos que visitei em toda minha vida, além da pesquisa em livros e discos sobre o assunto. A princípio levei o trabalho um tanto quanto descompromissadamente, até que perceber, como já disse, a lacuna muito séria na área cultural e antropológica a respeito e me dei conta de que esta pesquisa, era muito mais vasta e intensa do que poderia imaginar, pois não trata-se apenas de resgatar pontos cantados ou toques de atabaques, mas antes, tentar remontar um quebra-cabeças praticamente esquecido da história musical brasileira.

Ander Dias: E como tem sido esse resgate?

Obashanan: Não tem sido nada fácil, por vários motivos, que vão desde a dificuldade em se encontrar discos – a maior parte são muito raros -, até o descaso que as próprias gravadoras tinham com o gênero. Quando encontramos algo interessante ou raro em sebos, muitas vezes nos cobram preços absurdos…

Ander Dias: Porque os preços são abusivos, se são discos de público tão restrito?

Obashanan: A verdade é que muitos DJS gringos, europeus e norte-americanos estão vindo aqui e levando tudo que podem encontrar para fazerem suas mixagens com os ritmos “exóticos” da macumba brasileira. Quanto a pesquisa de campo, encontramos uma séria dificuldade com relação ao material de captação, pois nem sempre dispomos de gravadores adequados, as vezes a acústica dos ambientes não ajuda além do que trabalhamos praticamente sozinhos, o que demanda mais tempo para realizarmos algumas etapas.

Ander Dias: você disse que as gravadoras tinham descaso com o gênero…

Obashanan: sim, a maior parte dos discos das décadas de 30-70 não tinham nenhuma informação sobre os músicos, ou mesmo a data da gravação original. Poucas se preocupavam com estas informações a exemplo da Cáritas (mais tarde rebatizada como Luzes), que foi uma das gravadoras que mais contribuíram para a música sacra brasileira. Isso nos deixa no escuro quando falamos da história da música de terreiro, pois o preconceito sempre foi muito presente: temos inclusive um disco do J.B. de Carvalho, da década de 40, onde no rótulo interno há uma palavra que foi riscada, provavelmente pelo lojista. Acontece que nessa época era comum os discos virem com o nome do gênero que estava gravado, se era um disco de maxixe, de samba, de baião etc. A palavra que designava o estilo de J.B. de Carvalho e que foi riscada era exatamente “macumba”. Provavelmente o lojista, com medo de não realizar a venda, a riscou, para que os clientes pensassem estar comprando um disco de samba, pois J.B. transitou muitos anos por este estilo.

Ander Dias: quem foi J.B. de Carvalho?

Obashanan: J.B. foi um dos pioneiros ao gravar pontos de terreiro, assumindo abertamente a linguagem dos templos de umbanda. Inicialmente compôs muitos sambas e maxixes, mas depois passou a se utilizar do imaginário da Umbanda para compor suas músicas. É verdade que cometeu alguns pecados, como registrar pontos tradicionais de raiz em seu nome, como se os tivesse composto. Mas de certa forma se não fosse por ele, muitos pontos teriam se perdido ou sido completamente esquecidos. Foi um nome importante na música brasileira porque realizou, junto com Sussú, outro pioneiro, da mesma época, uma ponte entre a música de terreiro e a música secular, se utilizando de instrumentos e arranjos modernos para transmitir a mensagem umbandista. Mais tarde gente como Clara Nunes e João Bosco recuperaram esse modo de se fazer a música de inspiração umbandista. Hoje temos Rita Ribeiro e outros continuando a saga.

Ander Dias: conte-nos um pouco da história da música de terreiro e sua importância para a música e a cultura popular brasileiras.

Obashanan: Bem, todos sabem que as matrizes étnicas formadoras de nosso povo são o branco europeu, o africano e o índio. Mais tarde os orientais do oriente próximo e do extremo oriente. Em verdade todos estes povos trouxeram consigo tanto as manifestações musicais sagradas, rituais, quanto as profanas, através de celebrações e festas populares. De uma forma ou de outra, todos estes modos de se fazer cultura se intercambiaram segundo suas semelhanças aqui no Brasil e passaram a produzir uma terceira informação, desta vez híbrida, que formou aquilo que podemos chamar de “pontes culturais” entre uma manifestação e outra. Podemos dizer que o africano Bantu, que foi a primeira macro-etnia negra a chegar por aqui, trouxe uma informação específica de sua religiosidade e de sua compreensão cultural que logo se misturou com a do índio. Depois dos Bantu vieram os povos Jêje e mais tarde, já no fim do período da escravidão, os Yorubá. Todas essas informações culturais, mais as do branco, sob a forma de música e ritmo se consubstanciaram finalmente numa manifestação brasileira, única, de formato particular, só existente aqui. Exemplificando, podemos enxergar hoje, no próprio Maracatu influências indígenas (a começar do próprio nome), no caso do Maracatu Rural e influências africanas nos Maracatus Urbanos, de Baque Virado e de Luanda. Só que os próprios Maracatus, enquanto ritmo, enquanto tema, tomaram quase todo seu conteúdo da atmosfera imaginária dos terreiros, fossem africanos ou indígenas. O mesmo se deu com o samba, com o baião, com os frevos e com praticamente todos os ritmos brasileiros. Se originaram num contexto espiritual, dentro dos templos, tiveram “pontes” que podem ser identificadas em manifestações como os jongos, os cocos, os batuques e mesmo de personagens quase míticos como os violeiros, até desembocarem nas manifestações culturais mais modernas a partir da década de 20-30, quando a indústria fonográfica firmou suas pernas no país. Mas infelizmente quase ninguém se lembra – ou gosta de se lembrar que as origens de nossa música está lá no templo, no pé no chão, no jogo de búzios, no risco da pemba, no som do atabaque…

Ander Dias: Grandes compositores foram influenciados pela música de terreiro, não é mesmo?

Obashanan: Sim, o primeiro samba oficialmente gravado no Brasil, “pelo telefone” por Donga, foi composto com seus amigos na casa da mãe de santo Tia Ciata, onde os músicos se encontravam para tocar e compor. O próprio Donga era filho carnal de uma outra mãe de santo, a Tia Amélia. Várias dessas mães de santo promoveram o surgimento de grupos carnavalescos, que mais tarde se tornariam escolas de samba. Nos anos 20, podemos citar além de Donga, Sinhô. João da Bahiana, Bahiano e o próprio Pixinguinha como músicos influenciados diretamente pela música de terreiro. Até Villa Lobos foi. Nos anos 30, um compositor chamado Amor gravou alguns dos primeiros pontos de macumba, junto com um grupo chamado Conjunto Africano; além dele, Moreira da Silva, Paraguassu, Almirante e outros menos conhecidos gravaram pontos, ou mesmo músicas com referências ao assunto. Dos ícones, Ary Barroso sofreu essa influência em muito do seu trabalho. E não podemos nos esquecer de Dorival Caymmi e mais tarde Tom Jobim, Gil, Caetano e outros. Daí pra frente a influência é nítida, atuante e indispensável. É só pesquisar.

Ander Dias: E como está organizada a Fonoteca?

Obashanan: Inicialmente, temos como foco a música de terreiro, seja ela captada in loco, seja ela adquirida em discos, fitas ou cds. Está dividida em Umbanda, Encantaria, Kimbanda e nas nações: Indígena, Keto, Ijexá, Jeje, Angola e outras. Há a música de inspiração Umbandista, em que artistas que se inspiraram na música de terreiro terão seu espaço. Documentos Folclóricos, Capoeira, Jongo e demais estilos relacionados também fazem parte para se entender as pontes e as conexões de uma fase a outra da música brasileira. Temos também uma seção chamada “mundo”, onde a música de todas as partes do planeta estão arquivadas. Todo o acervo está sendo recuperado dos Lps, muitos dos quais em péssimo estado, para o formato digital, com uma cópia de áudio.

Ander Dias: Para finalizar, a fonoteca está aceitando doações de discos, fitas etc?

Obashanan: sim, aqueles que puderem colaborar conosco, entrem em contato com o Templo da Estrela Verde: Rua Marcos Arruda, 785, Bairro Belenzinho 03020-000 São Paulo (11) 98654-8214

Ander Dias: Muito obrigado.

 

Tam… tam… tam… – LP – Polydor – 1958

Tam… tam… tam… – LP – Polydor – 1958

01.Imbarabo; 02.Imbaê Sofá; 03.Nanã Imborô; 04.Fá-eu-á; 05.Oniká; 06.Ogum olojô; 07.Maracatu de Dona Santa; 08.De Luanda ô; 09.Maracatu Elegante; 10.Nêga Zefinha; 11.Tem Brabo no samba;

Disco raríssimo, uma preciosidade praticamente perdida e desconhecida no Brasil. Também conhecida como Brasiliana, peça do escritor polonês Miécio Askanazy, de muito sucesso nos anos 30 na Europa. A orquestra é excelente, com vocais e solo de Ivan de Paula, cantor muito requisitado no período quando se tratava de executar pontes musicais entre música de terreiro, música erudita e música popular com orquestra. A gravação da época deixa um pouco a desejar, e com o estado do disco o resultado sonoro não é muito bom (apesar da recuperação que fizemos). Com arranjos e direção de José Prates, o lado A é essencialmente baseado em música de terreiro, conforme está descrito nos rótulos do disco, são Macumbas, Candomblés e um Batuque no lado B. As outras faixas são composições regionais, Maracatus, Sambas e Lamentos. Percebe-se que a estética da época (veja a foto da capa) tenta imitar a concepção americana de “South Music”, que mais tarde derivou na conhecida “Salsa”, um estilo surgido da pobreza auditiva norte-americana que não sabia diferenciar rumbas de sambas, boleros de xotes, nem merengues de maracatus. Para a indústria era tudo a mesma coisa e a estética visual também pegou por lá, mas no Brasil bem menos, felizmente.

Aqui apresentamos a interessantíssima faixa 3, “Nanã Imborô”, música obviamente baseada em alguma canção de terreiro, mas que mais tarde gerou a canção de Jorge Ben, “Mas que Nada”, sucesso atual no batidão eletrônico da banda Black Eyed Peas. Ou não???

Para ouvi-la clique abaixo e tire suas conclusões:

J. B. Carvalho – O rei da Macumba – 1978

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J. B. Carvalho – O rei da Macumba – C.S.(Som Livre/1978) 1. Estrela Matutina; 2. Mamãe Oxum; 3. Sua espada Reluz; 4. Suará;

Este raríssimo compacto simples é o canto do cisne de J.B.. Seu último trabalho. Surpreendentemente sairia pela Som Livre, gravadora global, conhecidíssima nos anos 70 por “arquivar” artistas que não quisessem entrar nos ditames de seu esquema de mão de ferro (certamente este compacto deve ter sido extraído de um LP inteirinho que não foi lançado, e que deve estar lá nos arquivos da gravadora).
Com arranjos do lendário maestro Waltel Branco e com a produção do”Disco-man” Guto Graça Melo, J.B. de Carvalho foi um resgate interessante, um mito quase desconhecido numa época de crescimento da tecnologia e modernidade, onde praticamente tudo era dominado pela disco-music. Recolocado como “Rei” de uma “macumba” que jamais foi compreendida (até mesmo por ele) num país de preconceitos com a própria origem, J.B. neste registro é ao mesmo tempo triste, quase patético – por ser tratado como mero objeto na redescoberta de um mercado voraz que visava, na verdade produções que pudessem competir com a então rainha Clara Nunes e paradoxalmente vitorioso: sobrevivente de uma manifestação musical que deu origem a praticamente tudo que se conhece como música brasileira, seu reinado termina com um compacto onde conta com arranjos e produção de primeiro mundo.
Um tratamento digno (embora tardio) foi dado a este artista que apesar de algumas distorções em sua carreira, com relação à manifestação pura da doutrina da Umbanda em suas várias manifestações, foi – talvez com as óbvias exceções de Clara Nunes e Clementina – seu maior divulgador por quase quatro décadas, entre a massa anônima de prosélitos de todo o Brasil.
O Rei da Macumba despede-se de braços abertos de uma nação que jamais prestou-lhe reverência, ou sequer reconheceu-lhe a coroa. Para o bem, ou para o mal, Xangô saberá pesar sua importância na história da Música e da Umbanda do Brasil.

Para ouvir a faixa 1, “Estrela Matutina”, clique abaixo:

J.B. de Carvalho Apresenta São Jorge, o rei do terreiro – 1970

J.B. de Carvalho Apresenta São Jorge o rei do terreiro – LP – (Continental – 1970) 1. Beira Mar; 2. Ê-RÊ-RÊ; 3. Caboclo da Cachoeira; 4. Ogum Megê meu Pai; 5. Oxumarê; 6. Cangira; 7. São Benedito; 8. Tranca Ruas; 9. Cabocla Jurema; 10. Congo-ê; 11. Dia das Crianças; 12. Ponto de aniversário (Cosme e Damião);

Neste disco, J.B. de Carvalho gravou alguns dos pontos mais conhecidos do Brasil, colocando-se como autor dos mesmos. A percussão conta com atabaques, congas, agogôs, afuxés e bateria. J.B. regravou o ponto do Caboclo 7 Flechas várias vezes, talvez visando uma melhor sonoridade ou adaptar-se a novos tempos. O disco data de 1970, mas provavelmente as gravações são dos anos 50 e foram reeditadas.

Para ouvir a faixa 9, “Cabocla Jurema”, clique abaixo:

J.B. de Carvalho – anos 30/40/50

J.B. de CarvalhoLP – K7 – (A Universal – gravações dos anos 40/50 reeditadas nos anos 70) – 1.Ponto de babalaô; 2.Ponto de Congo; 3.Ponto de Iansã; 4.Pau Guiné; 5.Inaina Mocibá; 6.Ogun Maytá; 7. Pomba Gire; 8. Exu Tranca Ruas; 9. Ogum Megê; 10. Doum e Damião; 11. Ponto de Pomba Gira; 12. Hino a Iansã;

Este é um disco/coletânea que exemplifica muito bem o que J.B. produziu no ápice de sua carreira como cantor umbandista; os arranjos dos instrumentos são muito bem cuidados, os corais são afinados ao estilo dos grandes ícones da época de ouro do rádio, a ambiência e mixagem lembram muito gravações de Luiz Gonzaga, Orlando Silva e outros, quase tudo dos anos 30/40/50. Um disco muito bom…

Para ouvir a faixa 3, “Ponto de Iansã”, clique abaixo: